Le Bleu est une couleur chaude ~Um Romance Azulado~

Como já comentado antes neste “boteco”, cheguei a falar sobre o filme La Vie d’Adèle (confira aqui). E como havia comentando na introdução do mesmo texto, cheguei a citar que iria comentar sobre a graphic novel. Bem… chegou a hora de fazer isso!

AVT_Julie-Maroh_9586Le Bleu est une couleur chaude (Azul É A Cor Mais Quente), como já informado, foi escrito e desenhado por Julie Maroh. Julie é uma escritora e desenhista francesa formada em uma faculdade focada na área das artes (Académie Royale des Beau-Arts) e conta em seu currículo dois diplomas em artes visuais (especializada em quadrinhos).  Ela começou a trabalhar em Le Bleu est une couleur chaude (Blue Angel, título na versão em inglês) por volta de seus dezenove anos de idade (em 2004, mais ou menos), mas sua obra foi oficialmente publicada somente no ano de 2010 pela editora Glénat Editions AS. A graphic novel recebeu vários prêmios também.

Bem… Se o filme possui como ponto forte a direção, o ponto forte da HQ (irei me referir à obra/graphic novel assim a partir deste ponto) está em sua arte. A arte da HQ é realmente algo muito bonito. Embora o traço da autora possa causar certa estranheza para algumas pessoas, as expressões faciais ali desenhadas conseguiram passar o que os personagens estavam sentindo claramente exceto pelo sorriso de felicidade da Clémentine… aquilo me deixou com medo (risos).

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Medo

5454545454A disposição dos quadros também é outra coisa que ficou bem feita. Ela ajudou na fluidez da história e na construção de certos momentos da história (como a troca de cenas, por exemplo). Os cenários também foram algo bem trabalhado. Eles iam ganhando cor (inicialmente, azul) a cada momento que a protagonista ia mudando e crescendo/desenvolvendo como pessoa/personagem. Ou seja, os cenários acizentados representavam que a protagonista era só mais uma ali no meio de tantas personagens. Porém, conforme ela ia mudando a sua maneira de pensar e a se conhecer própria, todo aquele universo começou a se preencher por cores vivas. Embora esse recurso já tenha sido utilizado em outras obras ficou bem colocado e foi bem feito. Os cenários, em momentos trágicos durante a história, eram mais escuros o que criava um clima favorável à trama.

Paralelo a isso, temos a importância da cor azul, o estopim para colorir o mundo de878787 Clémentine. A cor azul ela “marca” as coisas importantes para a protagonista, na maioria dos casos em que foi aplicada. A exemplo disso, podemos citar toda a descoberta sexual da personagem principal (a propósito, a cor azul foi muito bem trabalhada na cena em que Clémentine teve a sua primeira “fantasia sexual” com Emma. As mãos azul invadindo o corpo dela foram algo bem simbólico). Em outras situações, a cor azul foi utilizada para marcar pequenos objetos –em sua maioria, importantes para a protagonista- ou só algum detalhe que representava alguma ligação entre ela e Emma ou a algum outro personagem. Em outro caso, o azul foi fortemente representado na própria personagem Emma (o estopim de todo desenvolvimento de seu par romântico). Outra cena que chamou minha atenção, ainda em função das cores, foi o loiro dos cabelos “originais” de Emma. Nos quadros em que ela se deita na cama de Clémentine e o amarelo alaranjado invade o quarto, percebemos a forte conexão entre elas.

A arte da HQ é algo bem admirável, mas a história também é muito boa fazendo jus a arte (risos). A descoberta de que a protagonista é homossexual foi algo muito bem trabalhado. Ela chegou a entrar em conflitos internos que levava ela a negação e a estranheza. Todo esse processo foi acompanhando de vários “vai-e-vem” e dúvidas da personagem, o que deixaram o conflito interno dela mais rico. Ou seja, a protagonista foi muito bem desenvolvida. Acompanhando disso, tivemos uma série de conflitos envolvendo a questão do preconceito tanto de amigos como o da própria família.

Nos conflitos entre amigos, Clémentine percebeu quem realmente eram seus amigos e isso serviu para abrir um novo horizonte para ela, o que a deixou mais forte. Podemos conectar esse fato com a questão dos cenários: as “amigas” dela fazem parte do cenário em preto e branco. Este conflito com os seus colegas também criou pequenos desentendimentos com a própria Emma. Tudo interligado de alguma forma. Já os conflitos familiares vêm acompanhados da grande mudança na vida de nossa protagonista. Após ter o grande choque dos pais em descobrir que a filha é lésbica (por sinal, aquela sequência de quadros sem balões de fala com uma boa sequência foi muito bem elaborada) e dos preconceitos que rodeavam eles (que foram expostos ao longo da história até esse momento), esse foi o ponto inicial para a vida conjugal entre o par romântico. No entanto, foi a partir deste ponto que a história começou a apresentar alguns problemas.

A HQ ela tem um ritmo bem fluído o que facilita na leitura. Porém, a partir da rachadura familiar que aconteceu a trama começou a passar… muito rápida. A autora deu uma acelerada na história e isso prejudicou na parte de “convívio” com as personagens e aquela dada situação. Basicamente, a autora ela foi fazendo pequenas amostras de como era a vida conjugal delas. A história não deu uma parada e focou na relação do casal. Nesse ponto, a sequência de quadros foi um tanto quanto funcional, pois mostrou o principal para o grande final, mas pecou no andamento da história. A trama apresenta um conflito de traição, mas isso não chegou a ser mostrado na história, o que acabou prejudicando no peso do conflito. Ou seja, o final da história foi comprometido.

Logo de início, a história nos diz e mostra que a protagonista havia morrido por algum motivo. Durante a introdução da história, tivemos trocas de linhas de tempo entre o presente (antes do funeral de Clémentine acontecer) e o passado (o desenvolvimento da protagonista, basicamente). Após a finalização da introdução, a história foca-se somente no passado. Essa organização foi bem eficaz. Além de mostrar o preconceito por parte do pai –que durante o desenrolar no passado, não apresentava sinais de preconceito, mostrou que a mãe havia mudado a sua forma de pensar –que na linha temporal do passado apresentava preconceito- e isso ficou bem disposto dentro do roteiro. Chegando ao ponto, nós já sabíamos que a protagonista estava morta, só faltava saber o “como”.

98989898Durante as sequências funcionais dos quadros, énos mostrado que a protagonista começou a tomar remédios (talvez para controlar uma suposta depressão) por conta própria, em função da briga após a suposta traição.  Talvez, pelo fato de sabermos isso e de a autora ter apresentado o que levou a morte dela, ela usou isso como uma “bengala” pela estrutura prejudicada do roteiro. Não sei se isso foi algo proposital ou não, mas deixou um ar de: ”Ta… okay”. A morte dela foi algo bem interessante. Além de a causa da morte ter sido algo significativamente pequeno, criou todo um sentimento de culpa em Emma e gerou a raiva, por parte do pai, em colocar culpa em Emma pela morte de sua filha.

Bem… a HQ é realmente muito boa, mesmo com problemas em seu fim. Como ela é bem fluída da para se ler em uma sentada (para algumas pessoas). Em meu caso, como leio devagar, li em umas duas horas. É uma leitura bem gostosa. Mas meus comentários não serão sobre a HQ em si, mas sim, uma breve comparação entre ela e a sua adaptação, o filme. A HQ e o filme abordam propostas diferentes. Enquanto a HQ aborda mais o preconceito (talvez o motivo de a autora a Julie não ter focado muito na relação delas pós-conflito de família), o filme já aborda mais o cotidiano da protagonista (a prova disso, a grande mudança na estrutura temporal da história e um foque maior nas “atividades pessoas” de Adèle). Um motivo para isso? Bem… talvez o diretor sentiu falta de mais  slice of life e quis fazer o filme focado nisso (risos). Gostei igualmente de ambos, porém achei o filme melhor. Embora o filme não tenha desenvolvido o preconceito, só apresentando, isso prejudicou pouco a história, já que a família de Adèle (estranhei um pouco a mudança de nomes, mas okay) ter sido esquecida. Mas a parte do cotidiano foi muito bem feita, em compensação. Ambas as obras são sensacionais, se poderem, tentem assistir o filme e ler a HQ ou ler a HQ e assistir o filme (risos). Deixem aí nos comentários sobre a opinião de vocês a respeito da obra. Ela é muito importante para mim. Espero que tenham gostado!

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